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quarta-feira, 25 de abril de 2018

AUTONOMIA, APRENDIZAGEM E EAD: REVISITANDO KANT


AUTONOMIA, APRENDIZAGEM E EAD: REVISITANDO KANT
Jonas Dias de Souza[1]
               Ao tentarmos construir uma biografia Kantiana, deparamos com inúmeras dificuldades, a começar pelo fato de que não encontramos grandes feitos tão comuns em grandes personalidades. Sabemos que nasceu na Prússia, em uma pequena cidade chamada Konigsberg, no abril de 1724. De família humilde que lidava com couro, foi professor particular (preceptor), não casou e nem teve filhos, não correu o mundo, e morreu na mesma cidade em fevereiro de 1804. Ao mudarmos o enfoque e tentarmos desvendar a produção intelectual deste pensador, batemos de frente com um muro e neste muro um edifício de incontáveis andares, que ao longo dos séculos gerou, influenciou, inspirou inumeráveis de obras mundo afora charges, artigos acadêmicos e livros, muitos livros. Encontramos afirmações que mencionam ser possível filosofar a favor e contra Kant, mas não é possível filosofar sem Kant. No que pese esta intricada construção composta de elementos diversos e contraditórios, conseguimos sintetizar em duas linhas de pensamento, a saber: Conhecimento e Moral. Na primeira linha investiga-se o conhecimento e suas possibilidades, fronteiras e aplicações. Como é possível conhecer? Na segunda linha, deparamos com o problema moral, o problema da ação humana. Neste texto, trataremos da questão da autonomia e da Aprendizagem no processo Educacional que se convencionou
chamar EAD.


          Algumas obras de Kant:
·       História Geral da Natureza e teoria do céu (1755)
·       Considerações sobre o Otimismo (1759)
·       Conceito de grandeza negativa ou Ensaio para introduzir na filosofia o conceito de grandeza negativa (1763)
·       Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (1764)
·       Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da metafísica (1766)
·       Dissertação de 1770 (1770)
·       Crítica da Razão pura (1781)
·       Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência (1783)
·       Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita (1784)
·       Fundamentação da metafísica dos costumes (1785)
·       Primeiros princípios metafísicos da ciência da natureza (1786)
·       Que significa orientar-se no pensamento? (1786)
·       Crítica da Razão prática (1788)
·       Crítica do juízo (1790)
·       A Religião nos limites da simples razão (1793)
·       Projeto de Paz perpétua (1795)
·       Antropologia do ponto de vista pragmático (1798)
·       O conflito das faculdades (1798)
·       Lógica (1800)
·       Sobre a pedagogia (1803)

EAD em perspectiva.
               As dificuldades educacionais se constituem em temas espinhosos, mas que devem ser levados para as discussões na academia. Mormente na EAD (Educação à distância), algumas dificuldades centralizam-se nas condutas dos alunos. Ausência de hábitos de leitura, numa demonstração franca de aversão a esta prática salutar, ou uma leitura centralizada nos modismos, e que não propiciam um crescimento e desenvolvimento crítico alia-se a outros fatores para dificultar o processo educacional. Não vamos tratar de outros fatores específicos, mas podemos citar dentre eles: falta de política pública para facilitar a edição de obras salutares e melhorias em bibliotecas e o sistema educacional público quase falido.
          O paradoxo das melhorias tecnológicas é que ao colocar ao alcance de um clique várias obras que demandavam um gasto financeiro (sem discutir as questões de Direitos autorais), também permitiu a democratização da literatura “trash”,ou seja, tanto é possível encontrar boas obras quanto péssimas obras literárias. E a falta de uma seletividade crítica sobre o que ler, somente transferiu para o virtual um problema que existia na educação tradicional. 
“A nível social destaco a estetização do mundo da vida que leva ao individualismo, à indiferença com o humano, à irresponsabilidade, à massificação e a conseqüentes formas de pensar e agir homogeneizados, não autênticos e autônomos” [2] (Zatti, 2007). 

A questão que se apresenta para a discussão é autonomia.  A aprendizagem autônoma caminha em sentido diverso da aprendizagem autômata.  Embora por vezes possam se encontrar lado a lado na mesma estrada.
          O conjunto de obras do filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804), o leva a ser considerado o filósofo principal da Era Moderna, principalmente na área epistemológica.  No que pese a tradição dizer que não era muito dado ao estudo em sua juventude, redimiu-se de qualquer “preguiça intelectual” quando a partir dos 50 anos alcança a reputação histórica com suas obras que aconteceram após ler David Hume.
Autonomia.
           Na filosofia temos este termo introduzido por Kant com a finalidade de designar a "independência da vontade" em conexão a desejo (qualquer desejo) ou seu objeto, em conformidade com a razão. Contrapõe-se à heteronomia. "A lei moral não exprime nada mais do que a autonomia da razão pura prática, isto é, da liberdade" (Kant, Crítica da Razão Prática). Em se tratando da questão da EAD (Educação a Distância) a autonomia é uma qualidade que deve ser inerente ao aluno enquanto sujeito construtor de seu conhecimento. Por autonomia devemos entender que o aluno de EAD é gerente de seus estudos e dele dependem a qualidade do aprendizado. Para Aurélio, autonomia é a capacidade do homem em governar-se a si mesmo e por si mesmo. Ainda em EAD o aluno enquanto sujeito, deve governar seu aprendizado de forma autônoma e com liberdade. Esta liberdade advinda da autonomia joga em seus ombros a responsabilidade de gerenciar seus estudos de forma qualitativa e quantitativa e por consequência gera reflexos na própria EAD. 


Autonomia versus Esclarecimento
               Aeducação autônoma facilita o processo de saída do homem de sua menoridade. O estudante autônomo é capaz de fazer uso do seu próprio entendimento e por consequência pensar criticamente.  O cerne do problema das deficientes leituras (ausência ou sem qualidade como dito anteriormente) é justamente o de colocar o homem (estudante) sob a tutela da razão alheia.  Neste diapasão, covardia, comodismo e preguiça e ouso acrescentar a preguiça intelectual, perpetua a permanência da menoridade.  Esta saída, este vencer de atitudes (porque é possível vencer a preguiça, comodismo e covardia), este processo é denominado na filosofia Kantiana de Aufklarung. Este termo (Aufklarung) é visto tanto como um processo quanto como uma idéia, e no que pese ser muito pesado para o homem se livrar sozinho da menoridade, que se junta ao homem como uma segunda pele, é possível a liberdade. Eis aqui o papel fundamental do professor conteudista e dos tutores em EAD, o de facilitar o processo de autonomia do aluno e não restringir a liberdade que ele tem de sair da menoridade.  Propiciar ao homem sair da menoridade é o papel mais importante do ofício de professor. Reside nisto a beleza do ofício do professor de filosofia.
A maneira pela qual Kant lança a questão da Aufklärung logo no início do texto orienta o leitor para uma possibilidade de uma “saída” do estado de menoridade, que pode ser compreendida como um “desafio” lançado ao próprio homem, a saber, “Sapere aude!”, a coragem de fazer uso de seu próprio entendimento. Este desafio, contudo, não deve ser entendido como uma aposta, possível ou não de ser alcançada. Não se trata meramente de uma provocação, mas de uma tarefa e uma obrigação. (Temple,2009)[3]



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Heteronomia e as leituras improdutivas.
Como vimos não basta ler. É preciso ser seletivo e crítico do que se lê. A seletividade nos leva a optar por textos salutares e de fontes confiáveis. E a crítica nos leva a não nos submetermos de forma cega e endeusar os pensadores e escritores. Se no processo autônomo o homem consegue sair da menoridade (esclarecimento), na heteronomia ele fica submetido ao pensamento, às leis que se originam do exterior. A lógica do mercado transformou as produções baratas (romances de bancas de revista) e as transformou em livros de capa dura, lançados em bienais, que embora, enfeitem as estantes e emprestem um ar de biblioteca para nossas salas, mantém o homem na menoridade, pois nos atrela à forma de exploração do mercado. É patente que esta exploração não se limita ao nível financeiro. É conveniente para pessoas que exerçam o poder em sentido contrário ao da moral e dos bons costumes que a população governada fique tal qual as marionetes dos espetáculos de outrora. Sem vontade. A manutenção da heteronomia passa pela oferta de literatura questionáveis a preços acessíveis de forma aalcançar a massa.
Situações como ignorância, escassez  de  recursos  materiais,    índole  moral,  etc,  impõe  determinações  que  limitam  ou  anulam  a  autonomia,  sendo  caracterizadas,  portanto,  como  heteronomia  A  autonomia  exige  uma  existência  que  não  é  de  antemão  determinada,  a  fim  de  que  o  sujeito  possa  exercer  o  poder  de determinar-se.(Zatti, 2007)
APRENDIZAGEM.
Recorrendo a Abbagnano em seu Dicionário de Filosofia, vemos que o conceito de aprendizado ou aprendizagem remonta aos filósofos gregos, sendo Platão o primeiro a ilustrar a noção de aprendizagem com a teoria da Anamnese. A alma aprende tudo e procurar e aprender seriam apenas reminiscências da alma. Através de associações das coisas entre si, após a alma captar uma coisa, captaria outra por vinculação e assim sucessivamente. O conceito desenvolveu-se ao longo do tempo  por muitas correntes de pensamentos e de pensadores, e encontramos Kant se perguntando “Como é possível conhecer?”. Mencionamos que a leitura de Hume despertou Kant de seu sonho dogmático, o prussiano constrói então seu conhecimento que em apertada síntese: Empírico ou a posteriori  e o puro ou a priori.  O primeiro se constrói pela experiência sensível e o segundo não depende da experiência sensível.  Quando produzimos juízos universais estamos diante de um conhecimento a priori.
Ousamos dizer então que o aprendizado realizado pela  autonomia é em Educação a Distância a melhor  via a ser considerada. As características da EAD exigem de seu aluno que ele seja crítico, autônomo, disciplinado, e que não se limite a simples tutela do docente ou de seu auxiliar. O aluno de EAD deve ousar e trilhar caminhos que por vezes é construído de forma individual mas não solitária. Buscar, investigar, acrescentar e refletir sobre os conteúdos sugeridos. E compartilhar nos diversos ambientes de AVA (Ambiente virtual de aprendizagem) que é sua sala de aula, as descobertas. Este compartilhar, esta inserção no ambiente social que chamamos fórum é que torna a EAD dinâmica. Ao sair da forma estática, a educação leva em seu bojo significativas construções de aprendizado e conhecimento
Bibliografia
Abbagnano, N. (2000). Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes.
Huisman, D. (2000). Dicionário de obras filosóficas. São Paulo: Martins Fontes.
Temple, G. C. (2009). Aufklarung a Crítica Kantiana no pensamento de Foucault. 12.
Zatti, V. (2007). Autonomia e Educação em Immanuel Kant e Paulo Freire. Porto Alegre: EDIPUCRS.





[1] Graduado em Filosofia pela UFSJ. Aluno da Pós Graduação EFEM pelo NEAD.
[4] Disponível em https://fabiomesquita.wordpress.com/category/parmenides-de-eleia/ acesso em 09/04/2018




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