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domingo, 27 de maio de 2018

Reflexões sobre o ensino de filosofia no ensino médio.

Reflexões sobre o ensino de filosofia no ensino médio.
Jonas Dias de Souza

Iremos refletir a partir do artigo “O professor de Filosofia: O ensino de filosofia no ensino médio como experiência filosófica” da mestra em educação Renata Pereira Lima Aspis. O artigo trás ideias que estão expostas na dissertação de mestrado “ENSINO DE FILOSOFIA PARA JOVENS COMO EXPERIÊNCIA FILOSÓFICA”  do ano de 2004.   O professor de filosofia para jovens no Brasil deverá pensar o que significa ensinar filosofia, para depois sentir-se em condições e fazê-lo. Isto se deve ao fato de que a filosofia no Brasil, no que respeita ao currículo do ensino médio nas últimas décadas tem sofrido uma inconstância. Ora é  ofertada, ora não. É cobrada, mas não valorizada. Tomemos como exemplo, o horário de aulas semanais de meu filho mais novo (2018) são cinco aulas de matemática para uma de filosofia.   Ao pensarmos que a necessidade financeira do professor de filosofia não é diferente da do professor de matemática entraremos num dilema.    No artigo, a pensadora chama a atenção para o fato de que nossas escolas possuem uma realidade heterogênea, e o fato de que ela (filosofia) não é ofertada de forma obrigatória, inobstante haver previsão legal.  Para além das dificuldades financeiras que envolvem a realidade do professor de filosofia, Aspis levanta uma série de perguntas possíveis: Para que defendo a filosofia na escola? Qual filosofia ensinar? Como fazê-lo? O que é filosofar?

Mas as perguntas que casam com a nossa disciplina (Introdução a Prática do Ensino de Filosofia) são: Damos aula de filosofia ou de filosofar? É possível essa separação das duas coisas?
O processo de entrada no Ensino Superior atualmente (no Brasil) envolve a participação no certame que se chama ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que cobra questões específicas da matéria filosofia separadas por áreas da história da filosofia. Neste sentido o estudante que tiver uma facilidade para decorar sairá em vantagem. Neste sentido o professor ao objetivar levar os alunos a uma alta pontuação nesta matéria, acredito eu que ensinará filosofia.  Lado outro, o crescimento incomensurável alcançado pelas mudanças de mentalidades que ocorrerão nas entrelinhas das aulas de filosofia e que impactarão a vida do jovem, será o filosofar.   Aspis levanta a questão da Filosofia ou Filosofar.  Propõe de início a análise da questão Kantiana sobre o cisma entre filosofia e filosofar, inserta na Crítica da Razão Pura, para quem não é possível ensinar filosofia e sim a filosofar.  Num primeiro momento, dado à dificuldade dos textos Kantianos, podemos em princípio pensar que é impossível ensinar filosofia. “Só é possível aprender a filosofar, ou seja, exercitar o talento da razão, fazendo a seguir seus princípios universais em certas tentativas filosóficas já existentes, mas sempre reservando à razão o direito de investigar aqueles princípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os ou rejeitando-os.” (Kant apud Aspis) Contudo, recorrendo à interpretação do professor Guillermo Obiols inserta no artigo de Aspis, vemos que, o aprendizado do filosofar é feito a partir de um diálogo crítico com a filosofia. Para ele (Obiols) aprendemos a filosofar quando estabelecemos a filosofia de modo crítico, o nosso talento para o filosofar realiza-se na atividade de compreender e criticar de maneira séria a filosofia passada ou presente. Para Obiols, Kant não é um formalista que prega um método vazio e nem avalista da idéia de um lançar-se a “pensar por si mesmo” sem esforço no abraçamento da crítica da filosofia, dos conceitos, problemas e teorias.
No sentido contrário a Kant, caminha Heggel, quando afirma que ao conhecermos o conteúdo da filosofia estamos não só conhecendo o conteúdo da filosofia, mas também filosofando. Para Heggel ensinar  filosofia e filosofar estão imbricadas. Não é possível ensinar a filosofar sem ensinar filosofia, assim como, o contrário também é verdadeiro. A aula de filosofia implica no filosofar e o filosofar implica na aula de filosofia. E como se posiciona a questão do ENEM que mencionamos alhures? As duas questões podem sim, ser trabalhadas de forma a atender as duas necessidades. O professor pode levar o aluno a um bom resultado no ENEM aprendendo a história da filosofia e em simultâneo aplicar o filosofar para questionar as suas necessidades diante dos problemas da vida. “Não há como ficar com uma coisa e dispensar a outra já que não duas coisas e sim uma só. Não há o dilema filosofia ou filosofar. Filosofia é filosofar e filosofar é filosofia.” (Aspis)
A filosofia possui uma vocação para formar que descobrimos quando percebemos que o ato de filosofar e de ensinar filosofia é indissociável, interdependentes um do outro, um se produz no outro.  Filosofia é liberdade. Esta possibilidade de construir junto com os alunos um caminho para fora do senso comum, de tornar-se sujeito de sua história e não se coisificar, é inerente ao ato de filosofar, e por imbricação é inerente ao ato de ensinar filosofia. A autora (Aspis) compara ao sentido nietzscheano de livrar-se de preguiça, medo e obrigações, propiciados pelo ensino de filosofia como experiência filosófica. O aprendiz se constrói junto com o professor. Este debruçar-se sobre as questões filosóficas tem sido feito ao longo dos séculos pelos filósofos. Iniciou-se com os Pré-socráticos, Sócrates, Platão, Epicureus e estóicos, Kant, e assim ocorre.
Ao professor de filosofia cabe respeitar as aspirações da juventude e suas inquietações pela busca de apreensão da realidade circundante. Deve ser a partir das questões dos alunos, dos assuntos que o afligem, que se busca construir o filosofar. Neste diapasão, a filosofia aparece como instrumento para tratar das questões universais da humanidade. Se o professor de matemática deve ser matemático e assim se segue; o professor de filosofia deve ser filósofo. Aulas de filosofia são produções de filosofia. Ao mestre, não cabe o papel de profeta ou de pregoeiros de supostas verdades. A chave do sucesso residirá no respeito para com o outro. “O professor de filosofia, dentro do que entendemos, vai ensinar a pensar filosoficamente, a organizar perguntas num problema filosófico, ler e escrever filosoficamente, avaliar filosoficamente, criar saídas filosóficas para o problema investigado.” (Aspis)
Na aula de filosofia não haverá espaço para a reprodução de fórmulas. Cada turma, cada aluno, cada aluno, cada segmento, possuirá sua singularidade. Ao bom professor de filosofia cabe transitar por estas nuances de diferenças que muitas serão perceptíveis somente aos olhos treinados pelo filosofar diuturno.  Ser modelo é diferente de ser matriz. O modelo ensina o caminho, a matriz é o caminho que não permite desvios. O modelo será lembrado ao longo da vida, enquanto a matriz exigirá sempre que seja vista. Permitir aos alunos que saiam da tutela, saindo da menoridade (Kant) e sendo modelo se reinventando, reaprendendo.
O professor de filosofia permite ao aluno ser ele mesmo, em respeito ao sujeito. Enquanto escrevo estas reflexões, sou informado de que uma professora de 6º ano fez uma aluna chorar ao ouvis a resposta de que a aluna queria ser médica, e respondeu que ela (aluna) não tinha potencial. Isto não deve ocorrer jamais com o professor de filosofia, nossos alunos poderão ser o que desejar: médicos, engenheiros, enfermeiros e até mesmo filósofos. A filosofia não educa para criar seres com imagem e semelhança, ou para mutilar, levando-os a concretizarem os sonhos que não realizamos, jamais, o professor de filosofia quer seus alunos sejam eles mesmos, se percam e se reinventem, assim como o mestre.



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