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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Qual o sentido da missão político-pedagógica do filósofo?




Qual o sentido da missão político-pedagógica do filósofo?

Jonas Dias de Souza[1]
O grande barato da filosofia é que após séculos no tempo ainda conseguimos dialogar com os pensadores da antiguidade. Esta dialética extemporânea é importante pois permite transitarmos entre as várias esferas de pensamento, compreendê-las e até mesmo aplicar em situações que se mostram para a época que vivemos.
Nosso mundo atual exige cada vez mais que o filósofo assuma seu papel diante da sociedade. Numa época de intensa atividade de redes sociais diversas, a interação social ficou esquecida e quase não existe mais o “tete-a-tete” e o olho no olho. Longe está a lembrança de uma família reunida na sala ou na cozinha próximo ao fogão de lenha discutindo como foi o dia e planejando as ações para o dia seguinte, ou simplesmente desfrutando da companhia do outro. Sabemos ademais que esta nossa imagem pode não ser perfeita, mas não nos paralisamos diante de um saudosismo perdido no tempo.
O que percebe-se é que as confidências de amizades tenderam a uma regressão diante destas redes sociais, e pode até mesmo transformar-se em provas. Aliás hoje tudo é prova quando se fala em redes sociais, se criticamos alguém, o “print” de tela existe para no acusar fora do contexto.  E o que falar de “Fake News” ? Notícias falsas que exigem um discernimento profundo e análises criteriosas. E temos ainda as “pós verdades”  com as quais temos que lidar de forma constante.



Vemos que não é fácil a vida do filósofo hoje em dia. A caverna assumiu várias formas cibernéticas e espalhou-se mundo afora. Mas a essência da alegoria não se perdeu ao longo do tempo.
No livro VII da obra  A República , Platão descreve alguns prisioneiros que acorrentados desde a infância em uma caverna, de forma que permanecem imóveis, contemplam apenas as paredes da caverna.  Atrás deles uma pequena parede, e entre a parede e uma fogueira, desfilam homens transportando objetos, e apenas os objetos transportados tem sua sombra projetada na parede vista pelos prisioneiros. E daqui em diante deixo para o leitor a instigação para procurar a obra platônica e ler o final desta história, e assim vou cumprindo meu papel de instigador.
Com esta alegoria, Platão pretende demonstrar o valor da Educação e da aquisição de conhecimento que permitem estabelecer pensamentos críticos, tão essenciais na busca da verdade. Temos também uma distinção entre o senso comum, representado pelas opiniões vagas e aparentes vistas pelos prisioneiros através das sombras, e o conhecimento científico representado pela luz.
O que Platão nos concita a fazer é perceber que a investigação é necessária para que não sejamos levados de supetão pelo sistema vigente. Mas enfrentar o sistema de forma crítica e inteligente. O filósofo não pode temer retornar à caverna.  Esta dialética descendente de volta à caverna deve ser realizada dia após dia por quem se dedica à filosofia, é um trabalho árduo, mas que encontra sua recompensa a conta gotas, e cada alma libertada das garras da ignorância será uma vitória.
Esta é a missão político-pedagógica do filósofo, não se contentar em atingir o saber, mas mostrar aos outrora companheiros de ignorância que existe uma realidade superior, e incentivar às descobertas. É um processo fácil? Não! Exige do filósofo uma adaptação em sentido oposto, o que pode ser mais desafiador e desorientador do que a saída da caverna.
O papel político da volta para a caverna é a prática da filosofia em sua essência mais pura e simples, é o comportamento baseado na sabedoria, seja na sua vida pública ou privada.
E por fim, informo que a ideia deste texto nasceu da leitura do livro Iniciação à história da filosofia  de Danilo Marcondes, leitura que recomendo para aqueles que estão iniciando a caminhada filosófica.  



[1] Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

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